quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Comensais de rua


O dia desfalece
Dentro de homens
Neblinados pela fumaça
Que sobe, como sacrifício,
Do churrasco do ambulante.

É um banquete proletário,
Cujo protesto não se ouve
E se dilui nos olhos
Que olham para o nada,
Embotados pela ruidosa sinfonia
De carros de homens-máquina.

                 Súbito

O véu do alheamento,
Que parecia inconsútil,
Se desfaz na fumaça
Que neblinava os homens,
Agora homens-carne, homens-ser.

Em volta da mesa-caminhante,
Todos em pé se entreolham,
Acordados do sono-torpor.
Veem-se humanos, uns nos outros.
Tacitamente solidários,
Irmanados, comungando o presente.

Canto do sabiá


O sabiá-laranjeira, lá fora,
Cantarola seu canto, sem demora.
Sabiá, quem foi teu professor?
Sabiá, diga-me, por favor!

Foi teu mestre menestrel singular?
Era ele do céu, da terra, do mar?
O que te ensinou ele o viveu?
Foi para ti mestre ou aluno teu?

Se aprendeste com algum professor
Esse canto, ilustre cantador,
Foi porque na vida se engendrou
Quem aprendeu e também ensinou.

No ato de aprender está o de ensinar.
Ambos são um no mesmo caminhar
No qual o ser se faz e refaz
Como o teu canto de ave audaz.