sexta-feira, 31 de outubro de 2014

No Getsêmani


E, estando em agonia, orava intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra. 
Lc 22:44

Noite de todas as noites do mundo.
O Príncipe da paz se angustia.
No Getsêmani, sobre seus ombros,
As dores dos oprimidos sem voz,
A fúria dos opressores em coro
Em forma de canto insano e feroz.

Noite de todas as noites do mundo.
Toda a criação testemunha a injúria,
Iluminada por tochas de trevas
Que espalham a densa escuridão
Por todo o monte das Oliveiras
Que tem o chão gotejado de sangue.

Noite de todas as noites do mundo.
Grande pavor, tristeza e angústia.
O cálice da morte está servido
Por serviçais com espada em riste
Que aprendiam no templo todos os dias
Com o Emanuel, o Deus conosco.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Comensais de rua


O dia desfalece
Dentro de homens
Neblinados pela fumaça
Que sobe, como sacrifício,
Do churrasco do ambulante.

É um banquete proletário,
Cujo protesto não se ouve
E se dilui nos olhos
Que olham para o nada,
Embotados pela ruidosa sinfonia
De carros de homens-máquina.

                 Súbito

O véu do alheamento,
Que parecia inconsútil,
Se desfaz na fumaça
Que neblinava os homens,
Agora homens-carne, homens-ser.

Em volta da mesa-caminhante,
Todos em pé se entreolham,
Acordados do sono-torpor.
Veem-se humanos, uns nos outros.
Tacitamente solidários,
Irmanados, comungando o presente.

Canto do sabiá


O sabiá-laranjeira, lá fora,
Cantarola seu canto, sem demora.
Sabiá, quem foi teu professor?
Sabiá, diga-me, por favor!

Foi teu mestre menestrel singular?
Era ele do céu, da terra, do mar?
O que te ensinou ele o viveu?
Foi para ti mestre ou aluno teu?

Se aprendeste com algum professor
Esse canto, ilustre cantador,
Foi porque na vida se engendrou
Quem aprendeu e também ensinou.

No ato de aprender está o de ensinar.
Ambos são um no mesmo caminhar
No qual o ser se faz e refaz
Como o teu canto de ave audaz.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Separação


Volta, volta, ó sulamita,
volta, volta, para que nós
te contemplemos. Ct 6:13

Não vá
Tão já
Pra lá
Do mar
Amar
Sem par

Eu cá
Polar
Sem ar
E lar
Lunar
Sou mar

Blasfêmia


Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e ficam como únicos moradores no meio da terra. 
Is 5:8

Nominaram toda a terra
Puseram-lhe etiquetas
Com nomes de opressão

As sanguessugas de baal
Apossaram-se de tudo
De tudo que era de todos

Seus corpos são corpos de morte
A se espraiarem pela terra
Gritando nomes blasfemos


sábado, 12 de abril de 2014

Despir-se


Eis o que tão-somente achei: que Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias. 
Ec 7:29

Deus olhou o homem
Com olhos de pluma
E viu sua imagem
Muito diversa da original.
Sua criatura, antes nua,
Vestiu-se de roupas estranhas.
E num contínuo vestir-se e revestir-se,
Em sua jornada sobre a Terra,
De variados tecidos seu ser avolumou-se.
O eu-original deu lugar ao eu-temporal
Agora vestido pelo alfaiate secular.
Roupas feitas de variados tecidos,
De acordo com os anseios do mundo,
Impedem o homem de ver-se em si,
Pois coberto está o que foi feito livre
De mundana roupagem.
Ainda assim, com seus olhos de pluma,
Deus penetrou as muitas tecituras humanas
E prepara além do tempo-espaço-mundo
A recuperação de sua imagem no homem
Que retornará do pó e nu do mundo.





quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Paço municipal

Cadê o dinheiro que estava aqui?
O fiscal embolsou.
Cadê o fiscal?
Foi para o paraíso fiscal.
Cadê o paraíso fiscal?
Do mapa desapareceu.
Cadê o mapa?
O colega do fiscal escondeu.
Cadê o colega do fiscal?
No seu iate desapareceu
Cadê o iate?
Pra sua mulher ele deu.
Cadê a mulher?
Como que por encanto também desapareceu.
Cadê o encanto?
Em propina se converteu.
Cadê a propina?
Na conta dos fiscais se escondeu.
Cadê a conta?
Em algum lugar se estabeleceu?
Cadê o lugar?
Na burocracia se escafedeu.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Profilaxia


Então, Eliseu lhe mandou um mensageiro, dizendo: Vai, lava-te sete vezes no Jordão, e a tua carne será restaurada, e ficarás limpo. 
2Rs 5:10

É preciso uma profilaxia no mundo.
Mas quem fez ou faz o mundo?
Mas é preciso uma profilaxia no mundo?
Salvem as baleias! Salvem as tartarugas! Salvem o meio ambiente!

Quem salva o homem?
Quem salva o homem de si mesmo?

Houve a grande explosão, dizem.

BUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!
Nascemos de um BUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM, dizem.

Deus? Que bobagem. Uma abstração. Deus? O que nunca existiu, dizem.
                                              Mas
deus-produto,
deus-sentença para o inferno,
deus sem deus.
deus de si: vômito da igreja-mercado.

Há Deus e deus.
Deus anda com os sem-nada.
deus anda com os grávidos de poder tirânico.

Deus anda com os vestidos de andrajos.
Deus, a profilaxia do mundo.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Ensimesmação




Mais poder tem o sábio do que o forte,
e o homem de conhecimento,
mais do que o robusto. 
Pv. 24:5-6

A linha se alinha
Se desalinha
Bem mansinha.

O caracol ao sol
Deixa o seu crisol,
Sua casa guarda-sol.

A aranha a tudo alheia
Tece a teia na areia
Onde a serpente serpenteia.

O homem sem Deus
Na sua vaidade creu
Ser ele mesmo um deus.

Profetas sem profecias



Vaidade de vaidades, diz o Pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade. 
Ec. 1:2

Muitos profetas das academias de um mundo senil
Apregoam teorias verborrágicas como encantadores
                    De serpente.

São eles os mentores deste século enclausurado
Em receituários com incrustações de vaidades feitas
                    De arsênio.

Em desespero, há quem pergunte aos tais profetas:
O que será do homem? Qual a saída?
                    A morte, concluem.

É a velha resposta para os desesperados:
"Bebam, comam e morram." Isso é tudo.
                    Noite do nada.

Ídolo de si mesmo



Também está cheia a sua terra de ídolos; adoram a obra das suas mãos, aquilo que os seus dedos fizeram. 
Is. 2:8

O mundo é um desvio que Deus não quis.
É um andar errante que tem como guia
                A cegueira do homem.

É terra estranha de solo movediço
Onde tudo parece sem raiz, sem alma,
                Incorpóreo.

Homens, coisas, desejos, protestos, guerras.
Tudo adoece na loucura humana,
                Do homem sem Deus.

As praças públicas estão cheias de homens coisificados
Pelas suas crenças, pelos seus delírios que alimentam o nada.
                O tempo presente é matéria do caos.

Nas escolas e universidades é apregoado o último gemido da Terra.
"A água está no fim; os rios e mares, podres; o ar, insuportável."
                Homem, algoz de si mesmo.

(Re)novo

(Re)novo

e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz.
 Cl. 2:15

A palavra saiu pelo mundo
A despalavrar a mentira apalavrada.
O Verbo se fez carne humana,
A mais humana de toda a carne.
E mais humana porque teve compaixão.
E mais humana porque ao homem se igualou
Ao se esvaziar de toda a sua Glória.
Seu triunfo escandalizou os homens de pouca fé.
Foi motivo de escárnio para os poderosos: morte de cruz.
De seu corpo de dores jorrou sangue-luz ao mundo,
E principados e potestades se desfizeram em pó.
Jesus, o Unigênito de Deus; dos homens, o desprezado.
Em seu último suspiro a todos libertou.
Na cruz ficaram pregadas nossa vergonha e a morte.
E com elas aniquilada a falta de esperança no porvir,
Preparado pela Trindade Santa.

Depuração




Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar. Ap. 3:15


O Exército de Deus cavalga ao meio-dia.
No asfalto do mundo, uma sinfonia de pedra
Sem cor, sem cheiro, sem luz, sem frescor.
A humanidade sem raiz rege sua idolatria.

O deus-ter despersonaliza o homem feito ser.
Transforma-o, transtorna-o, corporifica-o em coisa,
Em corpo-mercadoria, invólucro da loucura.
E nos abismos do mundo, esse deus-baal conjectura.

Por toda parte a imagem do irreal, do ídolo,
Que construído da substância do delírio,
Infecta até o verme que rasteja nas entranhas do homem.

O Exército de Deus cavalga ao meio-dia.
Com trombetas de fogo, os soldados desnudam a mentira,
Filha da perdição e da mesma substância de baal jaz vencida.